Eu tenho o limiar de dor bem alto (com exceção dos dentes... neles eu sinto mais dor, agonia, desespero, medo, do que em qualquer outra parte do corpitcho fofo), consigo suportar dores razoavelmente bem. E, por esta razão, e por ser fisioterapeuta, "travei" a coluna algumas vezes desde a juventude mas eu aguentava e me "tratava", com a ajuda de algumas companheiras de profissão, é claro. Me lembrei de uma vez, na faculdade, um professor me mandar procurar um neurocirurgião porque ele tinha certeza que eu tinha uma hérnia de disco.
Demorei alguns anos pra ir... quase 10 anos, na verdade. E quando fui, já estava com uma dor lancinante. Eu não conseguia ficar sentada por mais de 5 minutos. Lembro de me levantar algumas vezes durante a consulta. Fiz a ressonância, e não era 1 hérnia de disco, eram 3 hérnias, em um estágio bem avançado... Já fui avisada que era cirúrgico, e tinha que ser rápido. Que eu devia procurar o INSS pra me aposentar por invalidez e abandonar a fisioterapia o quanto antes. Fui em mais alguns médicos, e o discurso era o mesmo. Se eu não operasse a dor me deixaria em uma cadeira de rodas em pouco tempo.
Eu tinha contrato de aluguel no consultório onde eu atendia até o fim do ano. O "atestado de incapacidade" veio em março. Eu decidi ir tentando trabalhar, fazendo meu "auto tratamento", tratamento das colega e me entupindo de medicamentos. E ia procurando outros e outros médicos.
Tomava relaxantes musculares super fortes e morfínicos pra suportar a dor. Atendia os pacientes que me restaram pela manhã, e de tarde, completamente dopada, tentava ficar com meu filhote, que na época tinha 5 anos.
As contas iam se acumulando, porque o que eu conseguia ganhar trabalhando não pagava os gastos que tinha. Meu marido tomou conta totalmente das despesas da casa e da minha saúde.
Eu estava com 30 anos... um pedido de aposentadoria por invalidez... muita dor (o que é pior, é que a dor é incapacitante, eu não conseguia mais fazer atividades básicas da vida)... muitas dívidas... E... me apareceu uma "Colite", fui diagnosticada com Retrocolite Ulcerativa Inespecífica. Uma doença sem cura, auto-imune, crônica, que piorava por causa dos medicamentos pra dor. Eu tinha crises horríveis de intestino, cólicas horrorosas (lembra que eu tenho o limiar de dor alto) e eu cheguei a desmaiar algumas vezes. E o mediamento pra Colite, além de muuuuuito caro, fazia cair os cabelos, ainda bem que eu tenho muitos, enfraquecer os dentes, e aumentava as dores no corpo...
De repente, eu olhei pra mim e pensei... o que é isso que eu virei? Eu não lavava meus pés, dirigia com muita dor e curtas distâncias, ajuntava todas as minhas forças pra atender os pacientes que conseguia nas minhas manhãs, sem grana pra nada, cabelos caindo, o corpo todo doendo, não conseguia dar atenção pro meu filho direito porque viva dopada, podia passar dias sem ir ao banheiro ou ir de repente muitas vezes no mesmo dia, podia comer e sentir uma dor horrível e tinha vergonha disso... O que eu virei?
Um dia, uma amiga ligou, eu estava chorando muito porque ela estava grávida, eu queria muito estar próxima dela nesse momento, mas eu não conseguia e isso me machucava demais... eu só disse que estava chorando por causa da situação que estava passando, e ela me disse que eu não havia recebido um milagre porque não sabia orar... que eu devia reivindicar o meu milagre, que era garantido pra mim...
Eu ajoelhei aquela noite... fui orar... e a única coisa que eu conseguia falar era... Pai, eu sei que minha vida está nas melhores mãos, faz a sua vontade na minha vida, eu quero ficar curada, muito, mas antes da minha vontade eu quero a Sua porque sei que é o melhor pra minha vida... Orava em meio à soluços de choro. E tantas vezes, não conseguia dizer nenhuma palavra se quer. Ajoelhava e só chorava...
Uma amiga muito querida, que formou comigo mas trabalhava em outra área, levou o meu exame para um neurocirurgião do círculo de amizade dela. Ele pensou que a dona dos exames era uma senhora de mais de 80 anos... Quando descobriu que era eu, ele quis me ajudar. Foi até o meu consultório, me deixou muito clara a minha condição, a necessidade de deixar realmente a fisioterapia, que meu caso era cirúrgico sim, mas que eu não precisava me aposentar... (pensa no quanto foi bom ouvir isso!!) que ele me ajudaria... Me explicou que eu terei as 5 vértebras que dão mobilidade à cintura, imobilizadas, para sempre... não rebolo mais se operar... (esta é a principal razão de não ter operado até hoje) Me avisou que prestar concursos, que era a minha idéia quando acabasse o contrato do escritório, não era uma boa idéia porque qualquer raio-x, que são pedidos nos exames médicos quando os candidatos são aprovados deletaria a minha condição e eu seria descartada.
Entreguei o escritório... dia 31 de dezembro... chorei muito... era uma sensação de frustração enorme. 5 anos de faculdade, 1 de pós-graduação, 2 técnicas criadas por mim e registradas, consultório montado dispensando pacientes porque eu não conseguia mais atender...
A gente entra na fase dos "por quês". Por que isso aconteceu comigo? Por que então fiz faculdade? Por que? Por que EU?
E nesse desesperado dilema do POR QUE, estava relendo alguns emails que eu enviava pros componentes da equipe de louvor da igreja, toda semana, e num destes emails eu fazia uma comparação. O ourives pega uma pedra bruta e bem feinha de ouro, e esquenta, esquenta muito, pra que ele consiga moldá-la. E eu dizia, em primeira pessoa mesmo, Senhor, eu quero que me deixe passar pelo fogo pra que consiga me moldar como quiser.
A resposta do meu porque... chorei muito, reconheci que estava passando pelo fogo, mas que Ele não tinha me deixado sozinha um só minuto. Eu também não havia me revoltado e afastado. Apesar do tamanho sofrimento. Depois desse dia, mais ainda, eu pedia forças pra dar conta, mas sabia que eu estava nas mãos do grande ourives. Eu precisava ser moldada... (Eu ainda preciso, ainda tenho muito pra mudar nas mãos de Deus)
Os dias "à toa" em casa foram ainda piores... continuei tentando estudar pra concursos, era a única tentativa. Mas eu não conseguia ficar sentada estudando por causa das dores, se tomava a quantidade de remédios que me eram indicados pra suportar a dor proporcional às minhas lesões, só dormia... Comecei a diminuir os medicamentos... e aguentar as dores o máximo pra ficar a maior parte do tempo acordada, medicada eu dormia mais de 18 horas por dia... e eu sou mole pra caramba pra medicamento...
Até que um belo dia, estava eu fazendo algo que faço há anos... procurando fotos de fotógrafos de casamento pra olhar. Eu sempre amei isso! E desde o orkut, eu ficava procurando e procurando, olhando e admirando, fotos de casamento. Resolvi olhar valores de câmeras e cursos. Minha irmã disse que me ajudava comprando uma câmera mais em conta. O marido disse que topava a "loucura" de pagar o curso básico. E eu fui! Depois de muito tempo, senti uma alegria no coração, uma sensação de que ali era meu lugar... Me identifiquei de cara com a professora e ela me abriu os olhos e me apoiou de uma forma que nenhuma palavra do Dicionário Aurélio é capaz de explicar. Uma conhecida da família do meu marido, fotógrafa, que se tornou uma das minhas anjas, me levou a alguns ensaios e casamentos e me deixou fotografar... De repente, eu já recebia pra isso... em muito pouco tempo... dias de curso, fiz meu primeiro book com contrato e tudo mais. Em alguns meses, depois do primeiro curso, um casal de amigos ia casar e me deixou fazer o trash-the-dress deles, sozinha, e pediu pra que o fotógrafo que eles já haviam contratado pro casamento me levasse como segunda fotógrafa... tem foto minha no álbum deles!! Eles gostaram!!! Em menos de 1 ano eu já fotografava meu primeiro casamento com contrato... e muitos books, gestantes, bebês, crianças...
Hoje eu sou FOTÓGRAFA. E sinceramente, sou tão mais eu com a câmera na mão... Eu realmente sinto que só estou completa, quando fotografo...
Quando aquele médico amigo viu um álbum que eu havia fotografado em Pirenópolis ficou encafifado. Eu não podia subir escadas, não aguentaria descer até uma cachoeira e trabalhar, fotografar. Eu não conseguia ficar sentada porque a ultima vértebra lombar e o sacro estão "moídinhos da silva", como eu fazia pra editar e diagramar meus álbuns?... rsrsrsrsrs...
Eu ainda não fui curada... ainda tenho 3 hérnias na coluna lombar, em estágio muito grave. Não posso nem fazer caminhada... rsrsrsr... Tenho fases de muita dor, mas NUNCA DEIXEI DE FOTOGRAFAR NADA!
Eu vim aqui pra te contar isso tudo e dizer... cada um dos casamentos, ensaios, que eu posto são a prova de um milagre! Porque o meu milagre acontece todos os dias! Se eu tivesse reivindicado o meu milagre naquela época, Deus tivesse me curado, agora eu ainda seria fisioterapeuta, e passaria ainda grande parte das minhas noites entrando em sites de fotógrafos pra namorar as fotos de casamento, minha grande paixão.
Eu não tenho um pingo sequer de dúvidas: Deus me vê FOTÓGRAFA. Ele treinou meu olhar com lágrimas, meu corpo com dor, mas meu coração com esperança... E é isso que eu faço ao fotografar... Fotografo com cada lágrima derramada, com cada partizinha que já mostrou que existe através dos incômodos dolorosos, mas principalmente com a esperança de que Deus quer registrar e mostrar à cada casal, que estão iniciando um lar lindo juntos, à cada família o quanto são mais felizes e completos unidos, à cada menina o quanto elas são lindas porque foram feitas por Ele. A fotografia é uma forma de TRAZER À MEMÓRIA AQUILO QUE DÁ ESPERANÇA.
É claro que ás vezes tenho medo... Vou ter que operar... e aí, não fotografo mais bebês por causa da limitação dos movimentos? E meu futuro, como será? Qual será minha qualidade de vida na velhice? Me pego, às vezes, com medo sim... Mas quando me vem isso à cabeça lembro que é Ele quem toma conta de tudo... eu consigo viver um dia de cada vez, confiando...
Eu entendi que eu precisava ESPERAR, CONFIAR e DESCANSAR que Deus sabia o que estava fazendo. A vontade dEle é boa, perfeita e agradável. E muitas vezes a gente não entende...
Eu vivo na total dependência de Deus todos os dias da minha vida... porque por mim mesma, minha capacidade, minha habilidade, é triplamente herniada.
"Deus me carrega no colo..." Literalmente... (muitas vezes não seria capaz de andar com minhas pernas...)
