domingo, 1 de maio de 2016

Era a primeira vez que eu estava indo para Wedding Brasil, o maior congresso de fotografia de casamento da América Latina, era 2013. Eu já estava fotografando há quase 2 anos, mas meu coração ainda estava cheio de medos... principalmente relacionados à minha saúde, à minha vida financeira e à minha auto estima não muito alta.
No vôo eu me peguei viajando nestes medos, mesmo estando lendo um livro. (Faço tanto isso... enquanto estou lendo viajo em meus pensamentos e quando dou por mim, tenho que reler toda uma página porque não lembro uma linha do que li!). E fui longe... E meus medos aumentaram... E tomaram conta de mim naquele momento.
Já reparou que a nossa ansiedade, os medos, os problemas, aumentam quando prestamos atenção neles?
Dentre os meus devaneios medrosos e cheios de ansiedade o aviso de atar cintos aparece. O comandante avisa que passaremos por uma área de turbulência. Estávamos passando por uma pequena tempestade. Eu podia até ver alguns raios... Ainda bem não vieram tão perto do avião. Porque eu morro de medo de chuva. Não sei bem o porquê, mas eu tenho muito medo de chuva.
O avião deu algumas boas tremidas. Pela janela, só era possível ver cinza. E então, sem aviso algum, de repente, entrou uma luz linda. O avião voltou ao vôo tranquilo. Como num passe de mágica. Olhei, e vi as nuvens escuras debaixo de mim. A tempestade não havia acabado, mas agora, nós estávamos em cima dela.
Naquele momento Deus me ensinou o que é ter fé de verdade...
Eu entendi que meus problemas não haviam acabado. Eles continuavam lá. Mas dependia da minha fé, acreditar que Deus estava tomando conta de tudo. Deixar minha ansiedade de lado e ver a luz entrando pela minha janela.
Ele pode fazer com que o avião da nossa vida continue o vôo por cima da tempestade. Mas nós temos que deixar a cadeira do piloto pra Ele. Daí, a garantia não é de uma viagem sem turbulência, mas a possibilidade de passar por ela, e vê-la de cima, sem que ela nos amedronte. Isso acontece porque temos certeza da competência do comandante.
Semana passada nós fomos ao mesmo congresso, desta vez, e pela primeira vez, o Thiago foi comigo. Na volta, no vôo novamente, eu me lembrei daquele episódio. E o quanto foi transformador entender a lição naquele dia. Aprender o que é fé, e passar a utilizá-la desta forma, fez toda diferença da minha vida.
Ainda passamos por um monte de turbulência... Tantas vezes eu sinto meu avião balançar. Tenho medo. Aí, consigo passar a direção pro Comandante e posso ver a luz entrando pela janela novamente e a tempestade ficando embaixo porque é a mão dEle quem sustenta o avião da minha vida.


domingo, 21 de fevereiro de 2016

Detalhes...

Há alguns anos, eu e minha mãe estávamos de passagem, na chácara de um tio muito querido, nos arredores de Brasília. Eu sempre gostei demais das histórias que ele conta... mas neste dia, a história mexeu demais comigo.
Na juventude, ele foi motorista de caminhão. Naquela época, as circunstâncias e possibilidades eram bem diferentes dos caminhoneiros de hoje em dia... E em um certo dia, o caminhão pifou, era meio-dia, solzão rachando, calor demais, asfalto quente, com sede... ele decidiu descer do caminhão e ir procurar água por ali.
Entrou em um “matinho” ali mesmo do lado da estrada, tudo seco. Tomado daquele calor, do sol quente, do clima também... uma paisagenzinha sem graça, sem cor... De repente, ele ouviu um barulho, era água... era um veio dágua. Sentou ali, na sombra, e bebeu da água fresca.
De repente, ele percebeu uma plantinha bem diferente... a força daquele pequeno veio dágua era suficiente pra encher a folhinha com água, ela se dobrava e molhava as plantinhas ali em redor, e por isso, aquelas plantinhas não eram secas como as outras, porque elas eram aguadas. E o movimento se repetia incansadas vezes... A plantinha tombava para um lado se enchia de água dobrava pro outro e espirrava nas outras plantinhas ao redor. 
Meu tio disse que, no quase silêncio daquele instante, percebeu a maravilha de Deus... Para que uma regiãozinha, de uma vegetação toda seca, ficasse mais verdinha, Deus usou uma plantinha pra regar ali. Um detalhezinho, tão pequeno, que fez diferença pra ele naquele momento. Deus se preocupava com detalhes da vida dele também! Meu tio se envergonhou um pouco por ter estado rabugento por causa do calor e do defeito no caminhão, e resolveu ali, naquele lugar mesmo, agradecer a Deus por cuidar dos detalhes da vida dele. Lembrou da família, da saúde, de todas as graças que recebia diariamente...
Se refrescou o suficiente, encheu-se de força, e resolveu voltar pro caminhão. E, olhando bem, o caminho de volta não era tão seco e feio assim... Em meio há algumas plantas já queimadas pelo sol quente, haviam algumas lindas florzinhas, que o chamaram muito a atenção. E elas estavam ali, desde a hora que ele havia ido... mas ele não tinha visto! A chateação por causa do calor, do caminhão, não o haviam permitido ver o que de bonito havia no caminho...Mas perceber o cuidado de Deus com ele, e agradecer por cada benção o fez VER melhor.
Essa história é viva na minha mente... e me ensinou 2 lições valiosas!!!
Deus se preocupa com os detalhes... Muitas vezes eu não me lembrei disso, tentei resolver sozinha por pensar que era pequeno demais. Ou simplesmente não pensei que Deus poderia estar cuidando dos detalhes, dos pequenos detalhes. Mas Ele cuida! Deus é detalhista! Ele usa sim, pequenas plantinhas pra servirem de regadoras, e fazerem com que áreas secas da minha vida, se tornem bem verdinhas... 
A minha preocupação, raiva, desconforto, me impedem de ver as belezas que existem no meu caminho... Eu já deixei de desfrutar grandes lindezas da minha vida por estar cega de agonia, ansiedade, grilo mesmo... Não é que não estavam lá, eu que não vi... O desespero pelo que eu não havia conseguido me cegava. Mas sempre, sempre que eu consegui agradecer, de verdade, pelo que eu havia conseguido, eu enxerguei uma "paisagem" bem mais bonita!
São 2 horas da madrugada... Meu tio que me contou esta história está em um leito de hospital, sem movimentos, sem falar, mas provavelmente consciente...  teve 2 AVCs... Eu estou aqui, pedindo pra que ele se lembre desta história que me contou há alguns anos... e sinta o cuidado de Deus por ele.
E me lembrando disso, tudo, pedindo pelo meu tio querido eu parei e percebi que alguém pode estar precisando ouvir esta história também...
Você pode até pensar que os seus problemas são detalhes pra Deus, e que Ele está verdadeiramente mais preocupado em resolver grandes questões... Mas eu te garanto... Ele está usando folhinhas pra regar por aí também! Ele se preocupa com os detalhes, e está cuidando de todos eles...
Agora, você pode só estar vendo a paisagem seca, espinhos, uma feiura só! E eu quero te convidar a acreditar que Deus tem o controle sobre tudo isso e agradecer! É agradecer por tudo o que Ele já fez, por tudo o que já conseguiu. Daí, depois, só depois de deixar ansiedade de lado, esfregar os olhos, mudar o foco, e ver as florzinhas lindas do caminho! Acredite, elas existem!

Se você quer dividir sua história comigo, será um prazer receber um email seu: fotografaannabotelho@hotmail.com

Se acredita que alguém possa ficar feliz lendo esse post, fique à vontade em compartilhar. Vou ficar muito feliz!


quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Chega de Auto-Piedade!!!

De repente, eu tinha 30 anos e uma coluna de 80...
Pros médicos eu não podia mais subir escadas, ir à academia, fazer caminhada, ficar em filas, lavar vasilhas, limpar minha casa... trabalhar como fisioterapeuta, minha profissão há 7 anos quando recebi o diagnóstico das 3 hérnias em estágio avançado.
De L3 até S5, 5 vértebras na região da cintura comprometidas... artrose, pinçamento, espondilolistese... um monte de nomes que eu sabia o significado nos pacientes, mas em mim eu estava aprendendo e remoendo e “redoendo”...
Mais que a dor física... a incapacidade fazia sofrer muito mais! Já não lavava o pé sozinha... sandálias de abotoar era bem difícil... dirigir estava ficando complicando. Pensar que eu teria que depender dos outros me fazia ter vergonha.
Eu sempre tive o limiar de dor muito alto, por isso eu demorei a descobrir as hérnias, por isso só foi diagnosticado num estágio avançado. E eu me forçava a ter uma vida normal, mesmo sentindo dor... até não aguentar mais, e travar... e me dopar... e acreditar na “invalidez”.
Eu repetia pra mim mesma, muitas e muitas vezes que agora eu era inválida... como eu cuidaria do meu filho? Que futuro eu teria? Como seria minha vida com 60 anos se com 30 já estava naquela situação...?
Fechei o consultório, entreguei as chaves, avisei aos pacientes que não atenderia mais, e encerrei minha “carreira” de fisioterapeuta dia 31 de dezembro de 2010. Foi um dia terrível... pesado... Eu queria que alguém me desse colo... Passasse a mão na minha cabeça e me desse novamente motivo pra acreditar que valia à pena viver.
Eu me vi vítima da vida... Eu tive pena de mim... E eu queria que os outros tivessem também... Eu queria que Deus tivesse dó de mim... Pedi à Deus várias vezes uma doença que matasse logo, porque a “sentença” de viver pela metade me era pesada demais...
E então, lendo a Bíblia, eu li aquele versículo que todo mundo sabe de cor: “Posso todas as coisas naquele que me fortalece!” E pensei... se Deus me fizer um milagre, me curar, eu posso todas as coisas, retomar minha vida, voltar a atender como fisioterapeuta... E senti Deus falando comigo pra que eu lesse o versículo anterior... E dizia assim: “Sei estar abatido, e sei também ter abundância; em toda a maneira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade. Posso todas as coisas naquele que me fortalece” ( Filipenses 4:12 e 13). Deus estava me ensinando, que eu posso todas as coisas naquele que me fortalece porque é Ele quem me fortalece, independente da minha situação... Não depende da minha coluna, depende dEle... Depende do que eu deixo Ele fazer através de mim...
Quando minha mãe fez a cirurgia (no post passado do blog eu contei mais detalhes), poucos meses depois de eu ter fechado o meu consultório e abandonado a fisioterapia, eu precisei dormir alguns dias no hospital (pensa na quanto o sofá era confortável pras 3 hérnias... rsrsrsr), dei banho nela todos os dias durante algumas semanas, fui meio que enfermeira... opa! Alguma coisa eu conseguia fazer, mas eu precisava querer...
Vi uma história de um rapaz sem mãos e pés, por má formação, que dava palestras de motivação... e eu tive vergonha de ter pena de mim...
Eu não quis me aposentar por invalidez como alguns médicos indicaram... Eu não quis aceitar que não poderia mais trabalhar ativamente... Eu não quis desistir dos meus sonhos... Eu preferi sonhar mais alto!
A coluna me fez fechar o consultório e deixar de ser fisioterapeuta... mas eu sempre fui apaixonada por fotografia (de casamento então... rsrsrs), e de repente, vi meus olhos se abrirem pra esta possibilidade e quis desacreditar nas tais “impossibilidades”.
Pra realizar o meu sonho de fotografar, eu precisava deixar de ter pena de mim!
Eu ainda não consigo fazer movimentos de grande amplitude... Ainda é bem difícil estender as roupas de casa...  Ás vezes tenho dificuldades pra subir em algumas cachoeiras pra fotografar... Mas eu nunca deixei de fazer nenhuma foto por causa da minha coluna... Eu preciso me adaptar... pensar em outras formas de fazer a foto, mas desistir... é meio difícil!! rsrsrs... Tive que parar de fotograr festas infantis porque eram muito pesadas, no ritmo frenético da criançada e da forma intensa com que eu gosto de fotografá-las, o meu foco é fotografia de casamento e eu sempre estou inteiramente inteira pra cada um deles. Eu nunca deixei de fazer uma foto em um casamento... 
Vou contar um segredo, eu havia viajado pra um Congresso e travado a coluna lá, cheguei na sexta-feira, no sábado eu tinha 2 casamentos, 1 pela manhã em Goiânia e o outro de noite no interior... foram quase 24 horas seguidas de trabalho... E eu fiz... Não deixei de fazer nenhuma foto que minha cabeça pensou porque o corpo não conseguiu... Porque não depende de mim... Eu não sou vítima da coluna... Eu sou mais que uma coluna... Porque eu posso todas as coisas em Jesus que me fortalece. 
Fiz repouso total e absoluto, me mediquei, depois que terminei os 2 casamentos eu voltei pro repouso. É limitante sim... Ás vezes, se eu me deixar levar pelas condições, eu entro numa deprê maluca!!! Mas eu aprendi a me reerguer, porque eu deixei de querer ser vítima!! As vítimas sempre morrem nos filmes... Chega de vitimismo!! Chega de auto-piedade!! Eu não sou só uma coluna!!!
Eu tenho que me adaptar às minhas condições, mas isso não me faz pior, vítima, digna de pena... Pelo contrário, tenho tentado descobrir todos os dias, novas opções, novas formas, novas oportunidades.
Sei que cada trabalho que termino, cada álbum que entrego é um milagre, é uma prova que eu posso todas as coisas porque é Ele quem me fortalece.
No meio de todo este processo eu comecei um tratamento muito especial... que fez uma diferença enorme pra que eu mudasse de atitude. Não quero fazer jabá... mas como sei que muita gente me lê aqui e pode estar precisando de um empurrãozinho emocional eu me senti na obrigação de dar esta dica. Eu conheci a Dra Rosane, 2 anos depois de ter fechado o consultório, e pouco mais de 1 anos após ter iniciado na fotografia. Me conhecer, me amar, reconhecer minhas possibilidades, me fez querer dar a volta por cima... Se você quer conhecer mais sobre o trabalho dela, entre no site: http://emocionalmentebem.com.br/
Sabe, amigo... Eu não sou mais sofrida que a maioria das pessoas nesse mundo... Eu não faço parte da metade mais castigada da população mundial... Ter pena de mim, a autopiedade, o vitimismo, foi uma forma de fuga... de covardia... Porque se eu sou vítima, eu não posso fazer nada pra mudar... 
O vitimismo tira a nossa "atitude"... e perdemos as rédeas da nossa vida, perdemos o direito de lutar por ela, ficamos ao léu... Pode parecer mais fácil... mas eu realmente não queria deixar a possibilidade de ser feliz nas mãos do acaso. Eu quis deixar de ser vítima e ter a possibilidade de lutar pela minha vida! E tem dado tão certo...
Talvez, você que está lendo pense agora: “Meus problemas são muitos piores que o da Anna, eu sofro muito mais...” Ou então: “Mas com a Anna foi fácil...”
Eu realmente não duvido disso... mas o direito de deixar de ter dó de si mesmo e tomar nas mãos o seu destino de acordo com a possibilidade que Deus nos deu de podermos todas as coisas porque é Ele quem nos fortalece está nas suas mãos como esteve nas minhas.
Hoje eu tenho um trabalho que me faz feliz demais!! Eu e meu marido somos fotógrafos de casamento. Vivemos pra fotografar o amor!! E nada, nenhuma hérniazinha foi capaz de me tirar o direito de sonhar... não porque eu sou mais forte ou melhor que qualquer um de vocês que está lendo este blog... Mas porque eu acreditei que EU POSSO!
Eu tenho aprendido todos os dias desde que recebi o primeiro diagnóstico da coluna, há quase 6 anos atrás que depende muito mais do que está sadio em mim... Eu não sou uma coluna! 
Você não é seu casamento que acabou! Você não é seu emprego que perdeu! Você não é uma doença que apareceu!
Quando temos dó da gente mesmo... focamos no problema, e ele só aumenta!!!
Quando enxergamos mais em nós mesmos, vemos que temos muita coisa boa pra contar, e pra levar, e pra viver, e pra agradecer!!!!
E quando agradecemos... os grandes milagres acontecem!! Os motivos dos mais verdadeiros sorrisos aparecem!!

"O espírito do homem o sustentará na sua enfermidade; mas ao espírito abatido quem o levantará?" Provérbios 18:14

Mais uma vez quero me dispor a ouvir suas histórias também:
Meu email é: fotografaannabotelho@hotmail.com
Meu snapchat, se quiser me seguir por lá, trocamos muita idéia sobre a vida, sobre fé e sobre fotografia também... rsrsrs...: annabotelhofoto
Ah... e se quiser dar uma olhadinha no meu trabalho: https://thiagoeanna.wordpress.com/




quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Mudar o Foco...

E alguns meses depois que eu fechei as portas do consultório, deixando a fisioterapia por causa da minha lesão na coluna, enquanto ainda não sabia o que seria da minha vida e passava horas e horas dopada, lutando contra a depressão e o medo da "invalidez", aconteceu algo que me faria conhecer um princípio da fotografia antes mesmo de ter uma câmera fotográfica.
Eu acordei cedo pra levar o filhote na escola (desse prazer eu não me furtava, com dor ou não, eu o levava na escola todos os dias) e passei na minha mãe pra tomar café, como fazia todos os dias. Quando ela me olhou, vi que estava com o rosto torto. Pedi pra ela sorrir, o sorriso só abriu de um lado. Pedi pra piscar, só um olho piscou. Me gelei inteira e pedi pra ela levantar os dois braços, ela conseguiu... fiquei aliviada porque se levantasse só um, poderia estar tendo um AVE (Acidente Vascular Encefálico - Derrame).
Liguei pra uma amiga fisio CDF, ela me mandou correr com a minha mãe pro hospital porque aquela paralisia cerebral poderia ser mais do que uma simples paralisia cerebral... gelei de novo. Deixamos o menino na escola e fomos correndo pro Pronto Socorro. Minha amiga estava certa... minha mãe estava com um meningioma, um tumor no cérebro, benigno, mas que teria que ser retirado o mais rápido possível.
Aí começou a luta... o plano de saúde cobriria uma parte, mas precisávamos da autorização, o restante teríamos que pagar... Se o plano de saúde não cobrisse, a família não teria como arcar com tudo. E eu fiquei responsável de cuidar da minha mãe e correr atrás da bendita autorização, já que eu não estava trabalhando nesta época.
O tumor empurrava o cerebelo da minha mãe, além de ter paralisado a face. O cerebelo é responsável pelo equilíbrio e com o passar dos dias, a falta dele já era presente... minha mãe estava com 76 anos, e o tumor a estava debilitando ainda mais.
Com todos os exames prontos, só esperando a autorização do plano... e eles não autorizavam. Cada vez que eu ia até lá, era humilhada, sofria até chacotas dos funcionários. Ouvi várias vezes que o problema da minha mãe não era emergência, que eles passariam sim muita coisa na frente... Riam de me ver sentada lá esperando por mais uma auditoria...
Eu já não aguentava mais... minha cabeça parecia não acreditar no que estava vivendo... Já haviam se passado 2 meses...
Lembro como se fosse hoje, minha mãe não conseguiu passar na porta... a falta de equilíbrio, de noção de espaço, não a deixava acertar o meio, ela batia nas laterais... fui pro quarto e chorei demais... lavei o rosto e fui mais uma vez pra central do plano de saúde.
No caminho, eu agoniada, o farol fechou, eu parei o carro nervosa, acelerada, completamente atordoada. De repente, eu "ouvi" a música que estava tocando no rádio do carro.
"Ele exaltado, o Senhor exaltado no céu..." https://www.youtube.com/watch?v=896EtlCKFLk&list=RD896EtlCKFLk (pra quem quiser ouvir a música)
Comecei a cantar... a cantar... a cantar...
E aí, eu reparei que atrás do sinaleiro tinha um céu lindo!!! E continuei a cantar... e reconhecer a grandeza de Deus! Quem tinha desenhado cada nuance de azul daquele céu... E tudo, tudo o mais... Ele fez perfeito...
Adorando a Deus, eu vi o tamanho do meu PAI... Ele era tão maior que aquela situação!!!
Eu mudei o foco... parei de olhar pro sinal vermelho que fazia estar parada, mesmo tão agoniada... e foquei no céu! Percebi que meu problema pode ser enorme, mas ele sempre vai ser um anão comparado ao Deus que eu sirvo.
Não foi a última vez que fui ao plano de saúde... mas eles liberaram a cirurgia. Os médicos nos prepararam pra uma cirurgia de mais de 12 horas, 7 dias de UTI... Foram 9 horas de cirurgia, 1 noite de UTI, em menos de 1 semana estávamos em casa. Pra honra e glória do Deus que desenhou o céu, e cuida da minha mãe, e cuida de você aí!!!
Eu dei banho, eu ajudei a andar, eu troquei curativo... a minha coluna não lembrou que doía enquanto eu estava com ela... (Nesta época eu comecei a perceber que eu aguentava ficar sem medicamento, não podia estar dopada porque ela podia precisar de mim...)
E saí dessa com uma lição que nunca me deixaria... EU POSSO MUDAR O FOCO. DEPENDE DE MIM, MUDAR O FOCO.
Quando comecei a fotografar, aprendi que onde está o meu foco faz toda a diferença no resultado final da minha imagem. Focar é a ação que me fará mostrar a qualquer pessoa o que eu estou VENDO, inclusive pra mim mesma.
Experimenta mudar o seu foco... a mesma situação pode te dar uma fotografia muito mais interessante...
Tenta ver que além do sinal que ficou vermelho pra você, existe um céu, lindo...
Não esquece, nunca, que lembrar o tamanho do seu Deus, te faz entender, realmente. quem manda na coisa toda, e que perto dEle seu problema é pequeno... Ouse adorar a Deus em meio aos "sinais vermelhos" da sua vida...

Estou sempre à disposição de quem quiser trocar uma idéia comigo, é só enviar um email para fotografaannabotelho@hotmail.com


quinta-feira, 27 de agosto de 2015

"Deus me carrega no colo..."

Eu tenho o limiar de dor bem alto (com exceção dos dentes... neles eu sinto mais dor, agonia, desespero, medo, do que em qualquer outra parte do corpitcho fofo), consigo suportar dores razoavelmente bem. E, por esta razão, e por ser fisioterapeuta, "travei" a coluna algumas vezes desde a juventude mas eu aguentava e me "tratava", com a ajuda de algumas companheiras de profissão, é claro. Me lembrei de uma vez, na faculdade, um professor me mandar procurar um neurocirurgião porque ele tinha certeza que eu tinha uma hérnia de disco.
Demorei alguns anos pra ir... quase 10 anos, na verdade. E quando fui, já estava com uma dor lancinante. Eu não conseguia ficar sentada por mais de 5 minutos. Lembro de me levantar algumas vezes durante a consulta. Fiz a ressonância, e não era 1 hérnia de disco, eram 3 hérnias, em um estágio bem avançado... Já fui avisada que era cirúrgico, e tinha que ser rápido. Que eu devia procurar o INSS pra me aposentar por invalidez e abandonar a fisioterapia o quanto antes. Fui em mais alguns médicos, e o discurso era o mesmo. Se eu não operasse a dor me deixaria em uma cadeira de rodas em pouco tempo.
Eu tinha contrato de aluguel no consultório onde eu atendia até o fim do ano. O "atestado de incapacidade" veio em março. Eu decidi ir tentando trabalhar, fazendo meu "auto tratamento", tratamento das colega e me entupindo de medicamentos. E ia procurando outros e outros médicos.
Tomava relaxantes musculares super fortes e morfínicos pra suportar a dor. Atendia os pacientes que me restaram pela manhã, e de tarde, completamente dopada, tentava ficar com meu filhote, que na época tinha 5 anos.
As contas iam se acumulando, porque o que eu conseguia ganhar trabalhando não pagava os gastos que tinha. Meu marido tomou conta totalmente das despesas da casa e da minha saúde.
Eu estava com 30 anos... um pedido de aposentadoria por invalidez... muita dor (o que é pior, é que a dor é incapacitante, eu não conseguia mais fazer atividades básicas da vida)... muitas dívidas... E... me apareceu uma "Colite", fui diagnosticada com Retrocolite Ulcerativa Inespecífica. Uma doença sem cura, auto-imune, crônica, que piorava por causa dos medicamentos pra dor. Eu tinha crises horríveis de intestino, cólicas horrorosas (lembra que eu tenho o limiar de dor alto) e eu cheguei a desmaiar algumas vezes. E o mediamento pra Colite, além de muuuuuito caro, fazia cair os cabelos, ainda bem que eu tenho muitos, enfraquecer os dentes, e aumentava as dores no corpo...
De repente, eu olhei pra mim e pensei... o que é isso que eu virei? Eu não lavava meus pés, dirigia com muita dor e curtas distâncias, ajuntava todas as minhas forças pra atender os pacientes que conseguia nas minhas manhãs, sem grana pra nada, cabelos caindo, o corpo todo doendo, não conseguia dar atenção pro meu filho direito porque viva dopada, podia passar dias sem ir ao banheiro ou ir de repente muitas vezes no mesmo dia, podia comer e sentir uma dor horrível e tinha vergonha disso... O que eu virei?
Um dia, uma amiga ligou, eu estava chorando muito porque ela estava grávida, eu queria muito estar próxima dela nesse momento, mas eu não conseguia e isso me machucava demais... eu só disse que estava chorando por causa da situação que estava passando, e ela me disse que eu não havia recebido um milagre porque não sabia orar... que eu devia reivindicar o meu milagre, que era garantido pra mim...
Eu ajoelhei aquela noite... fui orar... e a única coisa que eu conseguia falar era... Pai, eu sei que minha vida está nas melhores mãos, faz a sua vontade na minha vida, eu quero ficar curada, muito, mas antes da minha vontade eu quero a Sua porque sei que é o melhor pra minha vida... Orava em meio à soluços de choro. E tantas vezes, não conseguia dizer nenhuma palavra se quer. Ajoelhava e só chorava...
Uma amiga muito querida, que formou comigo mas trabalhava em outra área, levou o meu exame para um neurocirurgião do círculo de amizade dela. Ele pensou que a dona dos exames era uma senhora de mais de 80 anos... Quando descobriu que era eu, ele quis me ajudar. Foi até o meu consultório, me deixou muito clara a minha condição, a necessidade de deixar realmente a fisioterapia, que meu caso era cirúrgico sim, mas que eu não precisava me aposentar... (pensa no quanto foi bom ouvir isso!!) que ele me ajudaria... Me explicou que eu terei as 5 vértebras que dão mobilidade à cintura, imobilizadas, para sempre... não rebolo mais se operar... (esta é a principal razão de não ter operado até hoje) Me avisou que prestar concursos, que era a minha idéia quando acabasse o contrato do escritório, não era uma boa idéia porque qualquer raio-x, que são pedidos nos exames médicos quando os candidatos são aprovados deletaria a minha condição e eu seria descartada.
Entreguei o escritório... dia 31 de dezembro... chorei muito... era uma sensação de frustração enorme. 5 anos de faculdade, 1 de pós-graduação, 2 técnicas criadas por mim e registradas, consultório montado dispensando pacientes porque eu não conseguia mais atender...
A gente entra na fase dos "por quês". Por que isso aconteceu comigo? Por que então fiz faculdade? Por que? Por que EU?
E nesse desesperado dilema do POR QUE, estava relendo alguns emails que eu enviava pros componentes da equipe de louvor da igreja, toda semana, e num destes emails eu fazia uma comparação. O ourives pega uma pedra bruta e bem feinha de ouro, e esquenta, esquenta muito, pra que ele consiga moldá-la. E eu dizia, em primeira pessoa mesmo, Senhor, eu quero que me deixe passar pelo fogo pra que consiga me moldar como quiser.
A resposta do meu porque... chorei muito, reconheci que estava passando pelo fogo, mas que Ele não tinha me deixado sozinha um só minuto. Eu também não havia me revoltado e afastado. Apesar do tamanho sofrimento. Depois desse dia, mais ainda, eu pedia forças pra dar conta, mas sabia que eu estava nas mãos do grande ourives. Eu precisava ser moldada... (Eu ainda preciso, ainda tenho muito pra mudar nas mãos de Deus)
Os dias "à toa" em casa foram ainda piores... continuei tentando estudar pra concursos, era a única tentativa. Mas eu não conseguia ficar sentada estudando por causa das dores, se tomava a quantidade de remédios que me eram indicados pra suportar a dor proporcional às minhas lesões, só dormia... Comecei a diminuir os medicamentos... e aguentar as dores o máximo pra ficar a maior parte do tempo acordada, medicada eu dormia mais de 18 horas por dia... e eu sou mole pra caramba pra medicamento...
Até que um belo dia, estava eu fazendo algo que faço há anos... procurando fotos de fotógrafos de casamento pra olhar. Eu sempre amei isso! E desde o orkut, eu ficava procurando e procurando, olhando e admirando, fotos de casamento. Resolvi olhar valores de câmeras e cursos. Minha irmã disse que me ajudava comprando uma câmera mais em conta. O marido disse que topava a "loucura" de pagar o curso básico. E eu fui! Depois de muito tempo, senti uma alegria no coração, uma sensação de que ali era meu lugar... Me identifiquei de cara com a professora e ela me abriu os olhos e me apoiou de uma forma que nenhuma palavra do Dicionário Aurélio é capaz de explicar. Uma conhecida da família do meu marido, fotógrafa, que se tornou uma das minhas anjas, me levou a alguns ensaios e casamentos e me deixou fotografar... De repente, eu já recebia pra isso... em muito pouco tempo... dias de curso, fiz meu primeiro book com contrato e tudo mais. Em alguns meses, depois do primeiro curso, um casal de amigos ia casar e me deixou fazer o trash-the-dress deles, sozinha, e pediu pra que o fotógrafo que eles já haviam contratado pro casamento me levasse como segunda fotógrafa... tem foto minha no álbum deles!! Eles gostaram!!! Em menos de 1 ano eu já fotografava meu primeiro casamento com contrato... e muitos books, gestantes, bebês, crianças...
Hoje eu sou FOTÓGRAFA. E sinceramente, sou tão mais eu com a câmera na mão... Eu realmente sinto que só estou completa, quando fotografo...
Quando aquele médico amigo viu um álbum que eu havia fotografado em Pirenópolis ficou encafifado. Eu não podia subir escadas, não aguentaria descer até uma cachoeira e trabalhar, fotografar. Eu não conseguia ficar sentada porque a ultima vértebra lombar e o sacro estão "moídinhos da silva", como eu fazia pra editar e diagramar meus álbuns?... rsrsrsrsrs...
Eu ainda não fui curada... ainda tenho 3 hérnias na coluna lombar, em estágio muito grave. Não posso nem fazer caminhada... rsrsrsr... Tenho fases de muita dor, mas NUNCA DEIXEI DE FOTOGRAFAR NADA!
Eu vim aqui pra te contar isso tudo e dizer... cada um dos casamentos, ensaios, que eu posto são a prova de um milagre! Porque o meu milagre acontece todos os dias! Se eu tivesse reivindicado o meu milagre naquela época, Deus tivesse me curado, agora eu ainda seria fisioterapeuta, e passaria ainda grande parte das minhas noites entrando em sites de fotógrafos pra namorar as fotos de casamento, minha grande paixão.
Eu não tenho um pingo sequer de dúvidas: Deus me vê FOTÓGRAFA. Ele treinou meu olhar com lágrimas, meu corpo com dor, mas meu coração com esperança... E é isso que eu faço ao fotografar... Fotografo com cada lágrima derramada, com cada partizinha que já mostrou que existe através dos incômodos dolorosos, mas principalmente com a esperança de que Deus quer registrar e mostrar à cada casal, que estão iniciando um lar lindo juntos, à cada família o quanto são mais felizes e completos unidos, à cada menina o quanto elas são lindas porque foram feitas por Ele. A fotografia é uma forma de TRAZER À MEMÓRIA AQUILO QUE DÁ ESPERANÇA.
É claro que ás vezes tenho medo... Vou ter que operar... e aí, não fotografo mais bebês por causa da limitação dos movimentos? E meu futuro, como será? Qual será minha qualidade de vida na velhice? Me pego, às vezes, com medo sim... Mas quando me vem isso à cabeça lembro que é Ele quem toma conta de tudo... eu consigo viver um dia de cada vez, confiando...
Eu entendi que eu precisava ESPERAR, CONFIAR e DESCANSAR que Deus sabia o que estava fazendo. A vontade dEle é boa, perfeita e agradável. E muitas vezes a gente não entende...
Eu vivo na total dependência de Deus todos os dias da minha vida... porque por mim mesma, minha capacidade, minha habilidade, é triplamente herniada.

"Deus me carrega no colo..." Literalmente... (muitas vezes não seria capaz de andar com minhas pernas...)


quinta-feira, 4 de junho de 2015

Eu tenho um Pai!!!!

Passei alguns meses sem escrever... mas agora, insistentemente... mesmo estando muito cansada, eu não consigo dormir. Me lembrei desse cantinho em que escrevi um comecinho de mim, e vim dividir mais um pouco das minhas histórias com Deus.
Como contei no post anterior, aos 11 anos, no dia dos pais, o Coral de Juniores que eu participava iria cantar em homenagem aos pais. Meu pai foi almoçar na minha casa e eu, é claro, o convidei pra ir assistir. Ele me disse então que não iria, que ser meu pai era muito difícil pra ele, que meu pai era Deus.
Uma menina de 11 anos, com a auto-estima baixinha baixinha, ouvir aquilo, era aniquilador. E não, eu não era uma criança terrível, pelo contrário, era pamonha que só! Sem grandes artes, sem nunca ir pra sala da diretora, sem nunca precisar de alguém mandar fazer tarefa, sem graves doenças... mas pra ele era difícil ser meu pai! Fui pro meu quarto e chorei muito... minha mãe veio atrás de mim e me disse: - Filha, presta atenção no que ele te disse. Seu pai agora é Deus! Ela me chamou pra orar, nós ajoelhamos no pé da cama, eu não consegui dizer nada... mas minha mãe, naquele momento, me entregou como filha "terrena" também à Deus.
À partir daquele momento, a minha relação com Deus começou a tomar outro rumo...
Isso aconteceu em agosto... no fim do ano, eu pedi um um perfume pra minha mãe. Já estava ficando mocinha e queria muito ter um perfume... queria um perfume da avon... Minha mãe não podia me dar. Estávamos passando uma fase financeira muito complicada, ela realmente não tinha de onde me dar aquele perfume. Eu lembrei que não poderia pedir pro meu pai... ela então me lembrou daquele dia, daquelas palavras do meu pai, da declaração que agora eu tinha um novo Pai e me disse: - Ele não disse que seu pai é Deus, vamos pedir pro seu Pai! E mais uma vez nos ajoelhamos nos pés da cama. Mas dessa vez eu consegui orar e pedi: - Pai, eu queria tanto um perfume...
Teria uma reunião de fim de ano das senhoras da igreja. Eu sempre ia com a minha mãe nestas reuniões, tinha uma irmã que fazia uma torta com pêssego dentro que era boa demais!! hahahahaha... E eu fui... Entre as brincadeiras teve um sorteio de um perfume, advinha quem ganhou??? Meu Pai me deu!!!
Esta foi apenas a primeira vez... apenas a primeira vez... Muitas vezes Ele usou situações adversas, outras vezes usou pessoas, e em outras tantas o Espírito Santo...
Eu tenho 6 irmãos homens, mais velhos, e tantas vezes, todos eles foram usados por Deus pra ser meu pai. Pagaram minha escola, me deram bronca, me aconselharam, me deram colo... Deus usou também pais de amigas e até meu sogro... Eu sei que Ele usou... Eu senti...
Mas muito mais do que isso, o que vim aqui te contar é que eu tenho um Pai! E tudo o que eu esperava que um pai fizesse por um filho, Deus fez por mim!! Ele me defendeu em situações humilhantes em que eu apenas pensava: eu vou contar pro meu Pai!! Ele me sustentou diversas vezes em que eu só poderia pedir pro meu pai e eu pedia: - Pai eu preciso tanto... Ele me deu presentes... Ele me avalizou... E por tantas e tantas e tantas e tantas vezes, nos vários desertos que atravessei DEUS ME CARREGOU NO COLO! Eu peço com estas palavras: - Pai, me dá colo! Pai, me abraça! E meu coração é inundado por um consolo que palavras não te explicariam...
Cara... eu não sei por quais razões eu estou contando isso madrugada à fora. Cara, eu não sei porque você está aí agora lendo esse texto. Mas meu Pai sabe...

"Assim como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece daqueles que o temem."
Salmos 103:13


sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Pra começar...

Quando eu nasci, fazia um mês que meu pai tinha saído de casa... eu sou a nona filha, meu irmão antes de mim já tinha quase 10 anos, isso quer dizer, que dos 9 filhos, eu sou a única que não tive o pai dentro de casa.
Mas meu pai foi super presente na minha primeira infância... me lembro com detalhes dele me levar no buteco de perto de casa, aos domingos antes do almoço, enquanto ele bebia uma dose de Chora Rita pra abrir o apetite e comprava o maço de Hollywood, eu pegava uma besteira de cada e o Seu Elias, dono do buteco, colocava em saquinhos de papel, marrom... lembro do cheiro dos saquinhos... Todo domingo ele almoçava em casa, algum dos meus irmãos, ou minha mãe ia buscá-lo na "firma", ele tinha uma casinha lá... geralmente ele trazia alguma coisa pra mim!! Requeijão, melancia, morango, laranja "dociiiiiiinha", como ele dizia...
Me lembro do estalar de dedos dele pra me chamar, eu ouvia de looooonge... vinha correndo pra me encostar nele.
Geralmente, e como todo menino, eu não comia tudo o que me colocavam no prato, e ele comia o meu restinho pra que eu pudesse logo partir pras besteiras do saquinho de papel que compramos no Seu Elias... Ele pegava só a parte da melancia mais vermelhinha, do miolo, e me dava, dizia que era só o filé!!! E o caldo da melancia descia barriga abaixo e tudo me grudava!!! O melhor descascador de laranja que eu conheci na vida... sem ferir, e fazia a tampinha ser sempre mais gostosa que o resto da laranja inteira!!
Ele tocava violão e violino... lindamente... eu ainda não conheço alguém que toque violão, torom-dom-dom, melhor que meu pai... eu amava ouvi-lo tocar!!!
Fui crescendo... e vendo mais do que eu queria... meu pai se juntou com uma funcionária da firma, e quando eu tinha 7 anos ele teve outro filho com a nova mulher. A partir daquele momento, e sem nenhum aviso prévio, a nossa relação mudou bruscamente...
Ele ainda ia na nossa casa, mas menos, os sacos de doce deixaram de existir, os filés da melancia não eram mais pra mim... agora, eu recebia o mesmo que ele dava pra irmã da mulher dele, que era mais ou menos da minha idade, e não o que o filho recebia. Mas eu ainda queria muito a companhia dele...
Aos 11 anos, me lembro como se fosse hoje, eu ia cantar no coral de juniores da igreja, pro dia dos pais... ensaiamos 2 músicas especiais, e eu estava empolgadíssima!! Ele veio almoçar aqui e eu chamei ele pra ir me ver, era o domingo dos pais, e eu não me cabia de felicidade! E eu recebi a resposta que me marcou por todos os dias dos pais da minha vida a partir dali... Ele falou: Pensa que eu num sou seu pai não, eu sou pai é dele (e apontou pro menino). Seu pai é Deus!
Foi a pior e a melhor coisa que eu ouvi na minha vida... Em outro post vou contar mais aprofundadamente na parte boa desta frase...
Eu chorei horrores... cantei, pela primeira vez na minha vida, com a voz embargada... quando terminou o culto, as outras crianças correram pra abraçar seus pais, eu peguei forte na mão da minha mãe... ela não me olhou, porque tinha ouvido o que eu ouvi, e pelo que aprendi depois que me tornei mãe, devia estar doendo mais nela que em mim... mas me deixou dormir na cama dela aquela noite.
Os anos foram passando... e a minha relação com meu pai foi ficando ainda pior... ele me negava médicos, remédios, escola, quanto mais brinquedos, roupas... eu já não gostava tanto de ir vê-lo, mas ás vezes eu sentia saudade e queria ligar... ainda lembro o telefone dele de cor...
Muitas vezes, eu orava baixinho enquanto o telefone chamava, pedia pra Deus pro meu pai não me falar aquelas coisas... e ás vezes dava certo, ele me tratava bem, me fazia rir... Mas geralmente não... principalmente se ele achava que eu queria alguma coisa... até que ele começou a me dizer que preferia morrer que ser meu pai, "dar um tiro na cabeça é melhor que ser seu pai"...
Eu era uma boa aluna, eu não era respondona, eu só era sonsa... rsrsrs... eu me olhava no espelho e pedia a Deus pra Ele me matar, ou então me fazer bonita, porque eu achava que se fosse mais bonita ele pudesse gostar de mim. Depois eu percebi que não era eu ser bonita ou não... ele não queria ser meu pai e ponto... independente de qualquer coisa...
Fui crescendo e a mágoa crescendo... já não ia mais na igreja em dia dos pais, as ligações de saudade já não passavam mais de 1 vez por mês, depois por semestre... depois eu comecei a ter dificuldades de dizer a palavra PAI ao me referir a ele... depois eu já não queria casar e ter filhos, pra que meus filhos não tivessem pai...
Enquanto eu tinha notícias da vida boa que ele levava com a outra mulher e o filho, eu passava noites em claro copiando textos da faculdade porque não tinha grana pro xerox, e não queria pedir pros meus irmãos e sabia que minha mãe não tinha... voltei da faculdade a pé pra casa, porque tinha que ficar o dia todo por lá, e gastei a grana de colocar na carteirinha do ônibus pra almoçar... (muitas amigas da faculdade vão descobrir isso hoje, eu disfarçava bem pra caramba)... antes que você pense que eu podia trabalhar, mesmo meu curso sendo integral, o tempo que dava eu trabalhava, fui professora, cantei em casamentos... eu dizia que queria todo mundo na minha formatura, mas ele não, porque quando pedi a grana pra fazer a inscrição do vestibular ele me disse que eu queria era vagabundar, que eu devia estar trabalhando em vez de pedir dinheiro pra ele...
E foi aí que tudo aconteceu... Cheguei em casa do estágio, já estava no último período da faculdade, fazia estágio no Hospital das Clínicas, e minha mãe me contou que meu pai estava internado com uma gripe muito forte.
Eu quis ir vê-lo... eu quis... cheguei lá, conversei... ele estava carinhoso comigo de novo... ele estava na enfermaria, mas eu, por ser da área, podia entrar. E num era gripe forte, suspeitaram de câncer de pulmão, mas era uma pneumonia... que se agravou e ele foi pra UTI. Só duas pessoas entrava na UTI por horário de visitas, mas eu conseguia entrar se desse sorte de uma das minhas professoras do estágio, e que trabalhava no hospital que ele estava internado, estivesse por lá.
Já era o terceiro dia de UTI, a mulher e o filho dele entraram, e minha irmã queria que eu desse um recado, porque ela achava que ele estava incomodado, preocupado com um favor que tinha pedido a ela, a enfermeira me reconheceu e me deixou entrar. Ele não estava abrindo o olho, aparentemente dormindo, já estava em estado regular desde o dia anterior, a enfermeira me disse que o próximo boletim já estava sendo feito, e que as notícias não eram tão legais...
Eu cheguei pertinho dele, peguei na mão gordinha e enrugada ao mesmo tempo, que não estava com o soro, dei o recado da minha irmã e não consegui ir embora. Eu abaixei mais pertinho dele e disse:
- Pai (eu consegui chamar ele de pai depois de tanto tempo), eu te perdôo, e eu quero te pedir perdão... eu estou indo embora mas preciso falar que eu amo o senhor...
Ele deu um suspiro tão alto, que a enfermeira olhou pra mim arregalada, viu minha emoção, e que ele tinha respondido também, mas pediu pra eu sair... Não contei nada pra minha irmã que estava comigo, fiquei em silêncio tentando entender o porque eu fiz aquilo, e sobretudo, o efeito em mim... eu estava leve...
Saí do hospital às 17:00 de uma segunda-feira, às 5:00 da madrugada da terça-feira ligaram avisando que ele havia falecido...
Deus me deu uma chance... a última chance... e perdoei, eu pedi perdão, eu disse que amava...
E incrivelmente, após aquele dia, as boas memórias que eu tinha dele, o filé da melancia, o toromdomdom do violão, o estalar dos dedos... se tornaram muito mais fortes na minha memória...
Eu não sei a quantidade de mágoas que traz no seu coração... eu não quem você precisa perdoar, pedir perdão... quem precisa ouvir de você um EU TE AMO!
Mas eu quero te pedir que faça... mesmo que seja difícil... amanhã pode ser tão tarde...