Mas meu pai foi super presente na minha primeira infância... me lembro com detalhes dele me levar no buteco de perto de casa, aos domingos antes do almoço, enquanto ele bebia uma dose de Chora Rita pra abrir o apetite e comprava o maço de Hollywood, eu pegava uma besteira de cada e o Seu Elias, dono do buteco, colocava em saquinhos de papel, marrom... lembro do cheiro dos saquinhos... Todo domingo ele almoçava em casa, algum dos meus irmãos, ou minha mãe ia buscá-lo na "firma", ele tinha uma casinha lá... geralmente ele trazia alguma coisa pra mim!! Requeijão, melancia, morango, laranja "dociiiiiiinha", como ele dizia...
Me lembro do estalar de dedos dele pra me chamar, eu ouvia de looooonge... vinha correndo pra me encostar nele.
Geralmente, e como todo menino, eu não comia tudo o que me colocavam no prato, e ele comia o meu restinho pra que eu pudesse logo partir pras besteiras do saquinho de papel que compramos no Seu Elias... Ele pegava só a parte da melancia mais vermelhinha, do miolo, e me dava, dizia que era só o filé!!! E o caldo da melancia descia barriga abaixo e tudo me grudava!!! O melhor descascador de laranja que eu conheci na vida... sem ferir, e fazia a tampinha ser sempre mais gostosa que o resto da laranja inteira!!
Ele tocava violão e violino... lindamente... eu ainda não conheço alguém que toque violão, torom-dom-dom, melhor que meu pai... eu amava ouvi-lo tocar!!!
Fui crescendo... e vendo mais do que eu queria... meu pai se juntou com uma funcionária da firma, e quando eu tinha 7 anos ele teve outro filho com a nova mulher. A partir daquele momento, e sem nenhum aviso prévio, a nossa relação mudou bruscamente...
Ele ainda ia na nossa casa, mas menos, os sacos de doce deixaram de existir, os filés da melancia não eram mais pra mim... agora, eu recebia o mesmo que ele dava pra irmã da mulher dele, que era mais ou menos da minha idade, e não o que o filho recebia. Mas eu ainda queria muito a companhia dele...
Aos 11 anos, me lembro como se fosse hoje, eu ia cantar no coral de juniores da igreja, pro dia dos pais... ensaiamos 2 músicas especiais, e eu estava empolgadíssima!! Ele veio almoçar aqui e eu chamei ele pra ir me ver, era o domingo dos pais, e eu não me cabia de felicidade! E eu recebi a resposta que me marcou por todos os dias dos pais da minha vida a partir dali... Ele falou: Pensa que eu num sou seu pai não, eu sou pai é dele (e apontou pro menino). Seu pai é Deus!
Foi a pior e a melhor coisa que eu ouvi na minha vida... Em outro post vou contar mais aprofundadamente na parte boa desta frase...
Eu chorei horrores... cantei, pela primeira vez na minha vida, com a voz embargada... quando terminou o culto, as outras crianças correram pra abraçar seus pais, eu peguei forte na mão da minha mãe... ela não me olhou, porque tinha ouvido o que eu ouvi, e pelo que aprendi depois que me tornei mãe, devia estar doendo mais nela que em mim... mas me deixou dormir na cama dela aquela noite.
Os anos foram passando... e a minha relação com meu pai foi ficando ainda pior... ele me negava médicos, remédios, escola, quanto mais brinquedos, roupas... eu já não gostava tanto de ir vê-lo, mas ás vezes eu sentia saudade e queria ligar... ainda lembro o telefone dele de cor...
Muitas vezes, eu orava baixinho enquanto o telefone chamava, pedia pra Deus pro meu pai não me falar aquelas coisas... e ás vezes dava certo, ele me tratava bem, me fazia rir... Mas geralmente não... principalmente se ele achava que eu queria alguma coisa... até que ele começou a me dizer que preferia morrer que ser meu pai, "dar um tiro na cabeça é melhor que ser seu pai"...
Eu era uma boa aluna, eu não era respondona, eu só era sonsa... rsrsrs... eu me olhava no espelho e pedia a Deus pra Ele me matar, ou então me fazer bonita, porque eu achava que se fosse mais bonita ele pudesse gostar de mim. Depois eu percebi que não era eu ser bonita ou não... ele não queria ser meu pai e ponto... independente de qualquer coisa...
Fui crescendo e a mágoa crescendo... já não ia mais na igreja em dia dos pais, as ligações de saudade já não passavam mais de 1 vez por mês, depois por semestre... depois eu comecei a ter dificuldades de dizer a palavra PAI ao me referir a ele... depois eu já não queria casar e ter filhos, pra que meus filhos não tivessem pai...
Enquanto eu tinha notícias da vida boa que ele levava com a outra mulher e o filho, eu passava noites em claro copiando textos da faculdade porque não tinha grana pro xerox, e não queria pedir pros meus irmãos e sabia que minha mãe não tinha... voltei da faculdade a pé pra casa, porque tinha que ficar o dia todo por lá, e gastei a grana de colocar na carteirinha do ônibus pra almoçar... (muitas amigas da faculdade vão descobrir isso hoje, eu disfarçava bem pra caramba)... antes que você pense que eu podia trabalhar, mesmo meu curso sendo integral, o tempo que dava eu trabalhava, fui professora, cantei em casamentos... eu dizia que queria todo mundo na minha formatura, mas ele não, porque quando pedi a grana pra fazer a inscrição do vestibular ele me disse que eu queria era vagabundar, que eu devia estar trabalhando em vez de pedir dinheiro pra ele...
E foi aí que tudo aconteceu... Cheguei em casa do estágio, já estava no último período da faculdade, fazia estágio no Hospital das Clínicas, e minha mãe me contou que meu pai estava internado com uma gripe muito forte.
Eu quis ir vê-lo... eu quis... cheguei lá, conversei... ele estava carinhoso comigo de novo... ele estava na enfermaria, mas eu, por ser da área, podia entrar. E num era gripe forte, suspeitaram de câncer de pulmão, mas era uma pneumonia... que se agravou e ele foi pra UTI. Só duas pessoas entrava na UTI por horário de visitas, mas eu conseguia entrar se desse sorte de uma das minhas professoras do estágio, e que trabalhava no hospital que ele estava internado, estivesse por lá.
Já era o terceiro dia de UTI, a mulher e o filho dele entraram, e minha irmã queria que eu desse um recado, porque ela achava que ele estava incomodado, preocupado com um favor que tinha pedido a ela, a enfermeira me reconheceu e me deixou entrar. Ele não estava abrindo o olho, aparentemente dormindo, já estava em estado regular desde o dia anterior, a enfermeira me disse que o próximo boletim já estava sendo feito, e que as notícias não eram tão legais...
Eu cheguei pertinho dele, peguei na mão gordinha e enrugada ao mesmo tempo, que não estava com o soro, dei o recado da minha irmã e não consegui ir embora. Eu abaixei mais pertinho dele e disse:
- Pai (eu consegui chamar ele de pai depois de tanto tempo), eu te perdôo, e eu quero te pedir perdão... eu estou indo embora mas preciso falar que eu amo o senhor...
Ele deu um suspiro tão alto, que a enfermeira olhou pra mim arregalada, viu minha emoção, e que ele tinha respondido também, mas pediu pra eu sair... Não contei nada pra minha irmã que estava comigo, fiquei em silêncio tentando entender o porque eu fiz aquilo, e sobretudo, o efeito em mim... eu estava leve...
Saí do hospital às 17:00 de uma segunda-feira, às 5:00 da madrugada da terça-feira ligaram avisando que ele havia falecido...
Deus me deu uma chance... a última chance... e perdoei, eu pedi perdão, eu disse que amava...
E incrivelmente, após aquele dia, as boas memórias que eu tinha dele, o filé da melancia, o toromdomdom do violão, o estalar dos dedos... se tornaram muito mais fortes na minha memória...
Eu não sei a quantidade de mágoas que traz no seu coração... eu não quem você precisa perdoar, pedir perdão... quem precisa ouvir de você um EU TE AMO!
Mas eu quero te pedir que faça... mesmo que seja difícil... amanhã pode ser tão tarde...

Bela história! Que possamos aprender a amar aqueles que nos deixou marcas dolorosas , porque é isso que o Senhor requer de nós. Deus abençoe a sua vida e te conserve sábia ainda mais (:
ResponderExcluirMeu Deus, que historia! Chorei aqui... vc eh um exemplo e tanto.. que Deus continue te abencoando. Bjos
ResponderExcluirMeu Deus, Anna, que estória linda!!!! Cada vez sou mais sua fã. Você é uma das pessoas mais lindas que eu conheço, e abençoada por ter uma mãezona que eu secretamente admiro.
ResponderExcluirBeijo grande para você.
Já ouvi essa história uma vez e, chorei. Hoje a li e novamente chorei. Talvez por ter passado por situação semelhante. Mas Deus é tão bondoso, tão nosso Pai, tão PAI com todas as letras e excelência, que nos ajuda a superar as situações ruins e com isso perdoar. bjim no coração.
ResponderExcluirLinda sua historia....fiquei muito emocionada...primeiro temos que nos perdoar para depois conseguir o perdão e perdoar alguém e isto é muito difícil...mas nos faz muito bem, crescemos!!!!
ResponderExcluirCom o coração aliviado vivemos melhor, de forma mais leve....
Bjs e quero continuar lendo seus texto,...
Parabéns...Bia
Caramba Botelho, desse jeito vc me desidrata.
ResponderExcluirLinda história de perdão e amor. Amiga nem preciso falar o quanto sou grata a Deus por ter vc como amiga e fotografa.
Obrigada, por compartilhar um pouco da sua Fé conosco.
Que Deus continue te abençoar cada dia mais.
Amém!
ResponderExcluirÉ dona Anna bonita cada vez mais viro sua fã
ResponderExcluirÉ pra matar a gente de chorar, é?! Nossa Anna... tanta coisa na vida você já passou... Você é mesmo um exemplo pra mim!
ResponderExcluirQue linda história Anna! Obrigada por compartilhar! Me emocionei!
ResponderExcluirQue linda história Anna! Obrigada por compartilhar! Me emocionei!
ResponderExcluirLinda história.
ResponderExcluirLinda história.
ResponderExcluirLinda história, Rubynha. Te admiro ainda mais hoje e acho que o Tiaguinho é um cara de sorte pela família que ele tem, onde tudo foi revertido em amor. Bjosss
ResponderExcluirLinda história, Rubynha. Te admiro ainda mais hoje e acho que o Tiaguinho é um cara de sorte pela família que ele tem, onde tudo foi revertido em amor. Bjosss
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